Descubra os fatores que estão a pressionar o last mile urbano e a redefinir as operações de distribuição

O crescimento acelerado do comércio eletrónico tem vindo a transformar de forma profunda os modelos de consumo e, consequentemente, as operações logísticas associadas à distribuição de bens. Neste contexto, a fase de last mile assume um papel cada vez mais crítico, concentrando grande parte dos desafios operacionais, económicos e ambientais da cadeia de abastecimento.
Nas áreas urbanas, esta realidade é particularmente evidente. A elevada densidade populacional, o congestionamento do tráfego, as restrições à circulação e as crescentes exigências dos consumidores contribuem para um ambiente logístico cada vez mais complexo e exigente. Ao mesmo tempo, a pressão para reduzir as emissões e melhorar a qualidade de vida nas cidades tem vindo a intensificar a necessidade de soluções mais sustentáveis e eficientes.
Neste enquadramento, o presente artigo analisa os principais desafios do last mile no contexto urbano, abordando questões como o congestionamento e as dificuldades operacionais, a evolução das expectativas dos consumidores, o impacto ambiental e a crescente pressão sobre os custos de distribuição. A compreensão destes fatores é essencial para enquadrar a transformação em curso no setor e identificar caminhos para uma logística urbana mais equilibrada e sustentável.
Resumindo
- O aumento das compras online tem colocado mais veículos de distribuição nas estradas, contribuindo para o congestionamento e a dificuldade de paragem nas cidades.
- Os consumidores esperam entregas mais rápidas, custos reduzidos e maior previsibilidade.
- Crescimento das Zonas de Emissões Reduzidas a nível europeu de forma a colmatar os efeitos da poluição atmosférica e sonora na qualidade de vida e saúde das populações.
- Custos operacionais crescentes com o last mile a representar 53% dos custos totais de envio.
Congestionamento e dificuldade de paragem
- Lisboa e Porto apresentam níveis elevados de congestionamento (até 102 h perdidas/ano).
- Na ausência de medidas estruturais, o número de veículos de distribuição poderá crescer até 61%, contribuindo para um aumento de 60% nas emissões de carbono e agravando o congestionamento urbano em cerca de 14%.
De acordo com o índice de tráfego da TomTom, o Porto e Lisboa destacam-se como as duas cidades mais congestionadas em Portugal. Em 2025, registaram-se perdas médias de 102 horas em hora de ponta no Porto e 95 horas em Lisboa, o que evidencia a crescente pressão sobre a mobilidade urbana.
O congestionamento urbano é um fenómeno multifatorial e de elevada complexidade, cuja mitigação não depende de uma única solução. Ainda assim, é inegável que o crescimento do comércio eletrónico tem vindo a intensificar este problema, ao aumentar significativamente o número de veículos de distribuição em circulação nas cidades.
Segundo dados da ANACOM, com base num inquérito realizado em 2025, cerca de metade dos portugueses entre os 16 e os 74 anos realizou compras online nos três meses anteriores. Adicionalmente, aproximadamente 12% dos inquiridos referiram ter efetuado vendas através da internet. Estes números confirmam uma tendência clara de digitalização do consumo, com impacto direto nos padrões de entrega.
Este aumento da procura tem implicações diretas na logística urbana, em particular na fase de last mile. De acordo com o World Economic Forum, na ausência de medidas estruturais, o número de veículos de distribuição poderá crescer até 61%, contribuindo para um aumento de 60% nas emissões de carbono e agravando o congestionamento urbano em cerca de 14%.
Para além dos impactos evidentes na qualidade de vida das populações, este cenário coloca desafios operacionais significativos às operações de last mile. Um maior volume de veículos em circulação traduz-se inevitavelmente em mais tráfego, tempos de deslocação mais longos e maior imprevisibilidade nas entregas. Como resultado, a eficiência operacional diminui, os custos aumentam e a capacidade de resposta às expectativas dos consumidores torna-se mais difícil de garantir.
Expectativas dos consumidores
- Consumidores exigem entregas mais rápidas (incluindo no próprio dia), custos reduzidos ou gratuitos e maior previsibilidade.
- Sustentabilidade é cada vez mais valorizada pelos consumidores.
- O tempo médio de entrega diminuiu de 2,36 dias em 2022 para 2,15 dias em 2023.
- Registou-se em Portugal um aumento de 102,87% no número de reclamações em 2025.
Segundo um estudo da ConsumerChoice, 63% dos portugueses inquiridos afirmam ter aumentado as compras online nos últimos dois anos, sendo que 32% refere realizar compras online mensalmente. Estes dados evidenciam uma mudança clara no comportamento do consumidor português, cada vez mais orientado para o digital.
As categorias de moda e acessórios, bem como tecnologia e eletrónica, lideram as preferências, com fatores como o preço, a comodidade e a facilidade de utilização a assumirem um peso determinante na decisão de comprar online.
No entanto, a experiência de entrega tornou-se igualmente crítica. A forma e a rapidez com que as encomendas chegam ao consumidor final influenciam diretamente o processo de decisão. De acordo com o World Economic Forum, 23% dos carrinhos de compra são abandonados devido a prazos de entrega demasiado longos, enquanto 48% dos abandonos estão associados a custos de envio.
A sustentabilidade surge também como um fator cada vez mais relevante. Cerca de 70% dos consumidores valorizam opções de entrega mais sustentáveis, estando mesmo dispostos, em alguns casos, a sacrificar conveniência ou rapidez em favor de um menor impacto ambiental.
Perante este cenário, os operadores logísticos têm vindo a adaptar as suas estratégias. Globalmente, o tempo médio de entrega diminuiu de 2,36 dias em 2022 para 2,15 dias em 2023, refletindo um esforço claro de melhoria da experiência do cliente.
Segundo o Barómetro e-commerce dos CTT (1ª vaga), 53,2% dos participantes já disponibilizam, ou planeiam vir a disponibilizar, entregas no mesmo dia. As entregas gratuitas, a velocidade e a previsibilidade são apontadas como os fatores mais valorizados pelos consumidores, demonstrando uma elevada sensibilização do setor para estas exigências.
A sustentabilidade também ganha expressão do lado das empresas, com 62,2% a oferecer, ou a prever vir a oferecer, embalagens recicláveis, enquanto 55,8% a oferecer, ou a prever vir a oferecer, produtos sustentáveis e 37,8% a oferecer, ou a prever vir a oferecer, entregas com veículos elétricos.
As expectativas dos consumidores por entregas cada vez mais rápidas, sustentáveis, económicas e previsíveis têm colocado uma enorme pressão no setor do last mile, levantando desafios difíceis para as empresas de distribuição.
Se, por um lado, as empresas procuram acompanhar esta evolução, por outro, enfrentam dificuldades em ajustar a sua capacidade à procura crescente. Como reflexo dessa tensão operacional, registou-se em Portugal um aumento de 102,87% no número de reclamações em 2025, sendo que cerca de 77% estão relacionadas com problemas de entrega, atrasos e falhas logísticas.
Poluição atmosférica e sonora
- A poluição atmosférica é responsável por cerca de 239 000 mortes prematuras na Europa anualmente, enquanto a poluição sonora causa aproximadamente 66 000 mortes prematuras.
- Pressão crescente sobre os setores com maior impacto ambiental, entre os quais se destaca o dos transportes.
- Uma das medidas mais relevantes no contexto urbano, e particularmente no last mile, é a criação de Zonas de Emissões Reduzidas (ZER).
- Em 2023, o setor dos transportes e armazenagem emitiu cerca de 818,85 toneladas de CO₂ equivalente por cada milhão de euros de riqueza criada.
De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, a poluição atmosférica é responsável por cerca de 239 000 mortes prematuras na Europa anualmente, enquanto a poluição sonora causa aproximadamente 66 000 mortes prematuras. Para além destes impactos mais visíveis, estudos demonstram que uma grande percentagem da população europeia contém níveis inseguros de químicos tóxicos no seu organismo.
Os efeitos da poluição não são distribuídos de forma uniforme. Grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças crónicas, são os mais afetados, o que reforça a urgência de medidas estruturais neste domínio.
Neste contexto, a União Europeia tem vindo a reforçar o enquadramento regulatório, impondo metas mais exigentes e obrigando a uma monitorização contínua da qualidade do ar e do ruído. Estas políticas exercem uma pressão crescente sobre os setores com maior impacto ambiental, entre os quais se destaca o dos transportes.
Uma das medidas mais relevantes no contexto urbano, e particularmente no last mile, é a criação de Zonas de Emissões Reduzidas (ZER). Estas zonas delimitadas impõem restrições à circulação de veículos mais poluentes, com o objetivo de melhorar a qualidade do ar nos centros urbanos.
Nos últimos anos, a evolução tem sido clara: várias cidades europeias estão a dar o passo seguinte, criando zonas de zero emissões, onde apenas veículos elétricos ou outros meios de transporte não poluentes são permitidos.
Os resultados destas políticas começam a ser visíveis. Entre 2005 e 2022, registou-se uma redução de 45% nas mortes prematuras associadas à exposição a partículas finas na Europa, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente. Ainda assim, o caminho a percorrer continua a ser significativo.
Em Portugal, apesar de se verificar uma tendência de redução da intensidade carbónica no setor dos transportes e armazenagem, os valores continuam elevados. Segundo dados da Pordata, em 2023 este setor emitiu cerca de 818,85 toneladas de CO₂ equivalente por cada milhão de euros de riqueza criada, posicionando-se como o quarto setor com maior intensidade carbónica no país.
Face a este cenário, e considerando que o crescimento do last mile poderá contribuir para um aumento significativo das emissões, os desafios de descarbonização tornam-se particularmente exigentes. A expansão do e-commerce e o consequente aumento do número de veículos de distribuição reforçam a necessidade de soluções mais limpas e eficientes.
Atualmente, Lisboa é a única cidade portuguesa com uma Zona de Emissões Reduzidas. No entanto, seguindo a tendência europeia, é expectável que este tipo de restrições venha a expandir-se. A concretizar-se este cenário, o acesso de veículos de combustão aos centros urbanos será cada vez mais limitado, ou mesmo eliminado em algumas zonas, acelerando inevitavelmente a transição para frotas elétricas.
Custos operacionais elevados
- Last mile representa 53% dos custos totais.
- Desafio cada vez mais complexo em equilibrar rapidez, custos e sustentabilidade.
As expectativas crescentes dos consumidores por entregas cada vez mais rápidas e económicas, aliadas ao aumento significativo do comércio eletrónico, têm vindo a intensificar a pressão sobre a distribuição urbana.
Neste contexto, a fase final do processo logístico, o last mile, assume um peso particularmente relevante, representando atualmente mais de metade dos custos totais de distribuição, com uma tendência claramente crescente. De acordo com o World Economic Forum, em 2018 o last mile correspondia a 41% dos custos totais, valor que aumentou para 53% em 2023, refletindo a maior complexidade operacional e a exigência associada a esta etapa.
Perante este cenário, as empresas de distribuição enfrentam desafios cada vez mais exigentes. A necessidade de garantir entregas rápidas, fiáveis e economicamente competitivas deve ser conciliada com a urgência de reduzir o impacto ambiental das operações e assegurar a sua sustentabilidade financeira. Este equilíbrio entre eficiência operacional, controlo de custos e responsabilidade ambiental emerge como um dos principais desafios estratégicos do setor no contexto atual.
Conclusão
Os desafios do last mile no contexto urbano são complexos e interligados, resultando da combinação entre o crescimento acelerado do comércio eletrónico, a intensificação do congestionamento, o aumento das exigências dos consumidores e a necessidade urgente de reduzir o impacto ambiental das operações logísticas. Este cenário coloca uma pressão significativa sobre os operadores, que se veem obrigados a encontrar um equilíbrio entre eficiência, custo, rapidez e sustentabilidade.
Ainda assim, importa destacar que estão já a ser dados passos concretos no sentido de mitigar estes desafios e transformar o modelo de distribuição urbana. A implementação de pontos de pick-up e lockers permite reduzir o número de tentativas de entrega falhadas e otimizar rotas, ao mesmo tempo que oferece maior flexibilidade ao consumidor. Em paralelo, a criação de micro hubs urbanos aproxima os centros de distribuição dos destinatários finais, contribuindo para a diminuição das distâncias percorridas e dos tempos de entrega.
Por outro lado, a aposta em veículos logísticos compactos, mais adequados ao ambiente urbano, bem como na eletrificação das frotas, tem vindo a ganhar relevância, alinhando-se com as exigências regulamentares e com a necessidade de reduzir emissões e ruído nas cidades. A par destas soluções físicas, a utilização crescente de tecnologias digitais, nomeadamente inteligência artificial, está a permitir otimizar rotas, prever padrões de procura e melhorar a gestão operacional, aumentando a eficiência global do processo logístico.
Em conjunto, estas iniciativas demonstram que, embora os desafios sejam significativos, o setor está em clara transformação. A conjugação de inovação tecnológica, novas infraestruturas e estratégias operacionais mais sustentáveis será determinante para garantir um last mile mais eficiente, resiliente e alinhado com as necessidades das cidades e dos seus habitantes.
Fontes
ANACOM. (2026). Metade dos portugueses comprou online e 12% vendeu pela Internet em 2025. Portal Do Consumidor. https://www.anacom-consumidor.pt/-/metade-dos-portugueses-comprou-online-e-12-vendeu-pela-internet-em-2025
CTT. (2026). Barómetro e-commerce CTT (1a vaga). In CTT. https://www.ctt.pt/blog/barometro-ctt-ecommerce-2026?srsltid=AfmBOorUZ6RzSGIkUK2gNSwJJo7PPLio_NJUKvFAs3kbQXaqMD5pz-ZZ
European Environment Agency. (2025). Europe’s environment and climate: knowledge for resilience, prosperity and sustainability. https://www.eea.europa.eu/en/europe-environment-2025/main-report
Murgeira, R. (2026). Reclamações no last mile duplicam em 2025 e mantêm tendência de subida em 2026. Distribuição Hoje. https://www.distribuicaohoje.com/supply-chain/reclamacoes-last-mile/
Peralta, H. C. (2026). Comércio online: 63% dos consumidores aumentaram compras online nos dois últimos anos. Forbes Portugal. https://www.forbespt.com/comercio-online-63-dos-consumidores-aumentaram-compras-online-nos-dois-ultimos-anos/
Pordata & INE. (2025). Intensidade carbónica da economia por setor de atividade [Dataset]. In Pordata. https://www.pordata.pt/portugal/intensidade+carbonica+da+economia+por+setor+de+atividade-3477-310754
TomTom Traffic Index. (n.d.). Portugal traffic report | TomTom Traffic Index. https://www.tomtom.com/traffic-index/country/portugal
World Economic Forum. (2024). Transforming Urban Logistics: Sustainable and Efficient Last-Mile Delivery in Cities. In World Economic Forum. https://reports.weforum.org/docs/WEF_Transforming_Urban_Logistics_2024.pdf
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